Paraíba também é fonte de pioneirismo em TI no Nordeste

Quando recebeu o seu primeiro computador, na década de 1960, a Universidade Federal da Paraíba (UFPB) iniciou um processo de pioneirismo no desenvolvimento tecnológico que levou o Estado a desbancar os vizinhos nordestinos e das regiões Norte e Centro-Oeste. Em 1970, o conceito de Parque Tecnológico da Paraíba começou a ser disseminado pelo então reitor da UFPB, Lynaldo Cavalcanti de Albuquerque, que promoveu investimentos na capacitação dos professores e atraiu pesquisadores e empresas da área de Tecnologia da Informação (TI). Os resultados já eram colhidos dez anos depois, quando o município de Campina Grande (PB) tornava-se sede do primeiro Parque Tecnológico do Brasil, mantendo até hoje sua relevância para o setor no País. Na construção dessa história, pelo menos dois personagens tiveram contribuições fundamentais: Sebastião Ferreira e Alexandre Moura.

O orgulho de Sebastião Ferreira pela Paraíba sempre se refletiu no seu compromisso de devolver ao Estado o que aprendeu na área de TI ao longo da sua trajetória de 50 anos na área. Da graduação no curso de Engenharia Civil, na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), à passagem, ainda que inconclusa, pelo curso de Engenharia Mecânica, no Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), em São Paulo, até a pós-graduação em Engenharia de Sistemas, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Sebastião sempre voltava a João Pessoa para treinar pessoas, expandir projetos e fazer a história da informática acontecer no ponto mais oriental das Américas. Foi assim que, no final da década de 1960, ele participou da instalação do primeiro computador que chegava à Paraíba.

Sebastião Ferreira, fundador da Simples.
“Foi na Saelpa (Sociedade Anônima de Eletrificação da Paraíba), em 1969, que chegou o primeiro computador. Eu participei da instalação, mas, no geral, não tinha mão de obra. Foi preciso fazer um concurso para isso”, lembrou, sorrindo, Sebastião. Segundo ele, este primeiro computador era um IBM 360 modelo 20, da terceira geração, com leitora de cartões perfurados e uma CPU de 8 kbytes de memória. Três anos antes, a Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), preocupada com a deficiência de capital humano em toda a região Nordeste, resolveu conceder bolsas de estudos a universitários, em diversas especializações, nas universidades brasileiras no período das férias. Sebastião, que já era aluno da UFPB, ganhou a bolsa no curso de Informática na prestigiada Escola de Engenharia da UFMG, em Belo Horizonte.

O primeiro computador da Saelpa tinha, além do desafio inicial de ser instalado, a grande missão de gerar contas de energia para 85 mil residências e de possuir um sistema de controle para fazer as cobranças. “Participei dessa implantação. Foi uma época de muito trabalho e muitas descobertas. Eu era jovem e passava noites em claro na Saelpa”, recordou.

Depois foi a vez da UFPB receber seu primeiro computador: um IBM 1130, cujo objetivo básico era ajudar na formação acadêmica. Sebastião foi novamente convidado para participar da instalação. À essa altura, como ele mesmo conta, não tinha mais volta. O relacionamento dele com a máquina que revolucionou o mundo só evoluía.

Simples Sistemas foi pioneira

O avanço dos computadores contagiava Sebastião Ferreira de tal forma que ele concluiu a pós-graduação em Engenharia de Sistemas, no Rio de Janeiro, no prazo recorde de seis meses. E lá, na Cidade Maravilhosa, teve acesso ao primeiro computador dotado de memória virtual que chegava ao Brasil, através da Companhia Telefônica Brasileira do Rio de Janeiro, a CTB. “Não conhecia o sistema, mas me engajei com a equipe, aprendi e voltei para a Paraíba. Tinha um compromisso com a Saelpa de voltar, estruturar o núcleo de informática e repassar o conhecimento”, explicou. Em 1974, resolveu montar sua própria empresa, a Simples – Sistemas, Métodos e Processamento Eletrônico Ltda. Ela foi a primeira empresa privada, na capital paraibana, a possuir computadores voltados para a prestação de serviço, fazendo história no Estado e se destacando no Nordeste pela sua expertise.
Livro de Sebastião Ferreira traz fatos marcantes de sua vida

Entre os serviços que prestava no então iniciante mercado de TI, estavam a emissão de folha de pagamento e notas promissórias, e relatórios de contabilidade. Sebastião chegou a dominar o mercado de tal maneira que, com mais de mil funcionários, prestava serviço para 12 agências bancárias, emitindo o produto que chamamos hoje de “saldo bancário”. Na década de 80, sua empresa também foi pioneira na parceria com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), quando fez, na Paraíba, a totalização das eleições de 1986 de forma eletrônica. Hoje trabalhando com banco de dados em nuvens, ele se preocupou em registrar sua trajetória e, consequentemente, a inserção dos computadores em João Pessoa através no livro Simples Assim. Membro da Academia Paraibana de Engenharia, Sebastião Ferreira olha para o passado na certeza de que cumpriu uma missão: “A maior felicidade da minha vida é saber que contribuí de forma simples na formação de técnicos e no desenvolvimento da tecnologia no meu Estado e no Nordeste.”

Campina Grande também contribui

Outro nome de destaque da área de TI da Paraíba é Alexandre Moura. Natural de Vitória de Santo Antão, na Zona da Mata de Pernambuco, Alexandre cresceu pessoal e profissionalmente em Campina Grande (PB). De lá, despontou para o mundo. Formado em Engenharia Eletrônica pela UFPB, fez MBA em Software Business, na Nova Southeastern University, na Flórida (EUA), e é diretor da Light Infocon Tecnologia, que, com seus serviços, consolida Campina Grande no cenário internacional da tecnologia de ponta.

Alexandre Moura em uma das muitas entrevistas que já deu.

 

A trajetória narrada em minutos, com a simplicidade de quem tem consciência do seu papel no mercado de TI, mistura-se com o ritmo típico dos apressados em agir e seguir colaborando com o futuro. Alexandre Moura fundou o Parque Tecnológico de Campina Grande, um dos primeiros do País, e foi um dos fundadores da Softex do Brasil, Associação para Promoção da Excelência do Software Brasileiro, sendo o primeiro presidente nacional da associação. Faz pelo menos 10 anos que seus softwares são utilizados pelas polícias de pouco mais de 10 países. Isto mesmo: um software criado em Campina Grande, através da plataforma Light Base, ajuda a combater a criminalidade no mundo.

No caso da área de segurança, o banco de dados desenvolvido pela empresa de Alexandre Moura ajuda a inteligência policial inserindo imagens, sons e textos, além de cruzar dados, que otimizam a investigação e posteriormente facilitam a solução de crimes. O empresário, no entanto, explica que o banco de dados pós-relacional é amplo, indo desde a área médica até a militar. Se a tecnologia parece sem barreiras atualmente, Alexandre lembra que nem sempre foi assim. “No início, tivemos que lidar com o preconceito com os nossos produtos para alcançar outros lugares do Brasil e chegar no mercado internacional, mas agora melhorou bastante. Hoje, ninguém quer saber de onde vem a tecnologia. Importa se ela funciona para resolver aquele problema”, explica.

De acordo com ele, há 10 ou 15 anos, quando se apresentava um produto bem-sucedido no mercado, a primeira aposta era que se tratava de uma tecnologia vinda dos Estados Unidos; se a dica apontasse que era produto brasileiro, o palpite é de que vinha de São Paulo ou de outro Estado. O Nordeste e, mais especificamente, a Paraíba, não constavam na lista dos lugares “hi-tech” que a maioria das pessoas tinha em mente:

Olhar o Porto Digital agora é fácil, mas não foi fácil a trajetória. Mas hoje a tecnologia não ficou concentrada em um só país. Podemos tê-la e produzi-la em qualquer lugar do mundo.”

A preocupação é com mão de obra

Para Alexandre Moura, algumas áreas, porém, não avançaram. Ou, mais que isso, precisam evoluir e acompanhar a tecnologia propriamente dita. A formação e qualificação da mão de obra é uma delas. De acordo com ele, uma pesquisa que se tornou documento, produzido recentemente em conjunto com Silvio Meira, mostrou que, em fevereiro de 2018, existiam 500 vagas na área de TI não preenchidas pela ausência de qualificação. Em fevereiro de 2019, esse número passou para 2.300 vagas. O cenário preocupa, segundo ele, porque a maioria das empresas precisa da agilidade de um profissional apto a atender as demandas do mercado. Não há tempo para contratar, investir em capacitações e só depois ter um funcionário conectado com as necessidades da empresa.

“A velocidade com que a tecnologia avança é absurda. Seis meses é o máximo de tempo para uma novidade ocorra. Na área de Inteligência Artificial, esse prazo não passa de três meses. Não tenho problema em dizer, mas não dá para as universidades estarem com o mesmo currículo de 10 anos atrás. O jovem sai hoje da universidade sem saber como produzir para smart, sem saber como otimizar um conteúdo na nuvem. Não dá”, criticou Moura.

Para ele, é importante que as universidades reservem os últimos semestres do curso de TI para o foco na atualidade do mercado e preparação dos alunos para aquilo que realmente vai ser exigido deles pelas empresas que os contratarem. Ele explica que Campina Grande tem sido reconhecida por ser um polo tecnológico também educacional, com diversas instituições de ensino atuando na área e antenadas com as exigências de mercado. Sobre a qualificação da mão de obra, ele questiona: “Qual é o posicionamento do governo brasileiro para a área de tecnologia? Que suporte governamental está sendo preparado para os próximos anos? A importância do desenvolvimento de TI tem que ser refletir no orçamento federal para a área”, defendeu.

Como empresário, Alexandre Moura explica que, no Brasil, um terço do tempo é gasto tentando administrar a burocracia e o que sobra é muito pouco para criar, desenvolver e vender em outros países. “Estou nisso há mais de 30 anos e afirmo que, mesmo com todo potencial que as empresas brasileiras possuem e negócios que têm conquistado nos eventos internacionais das quais participam com estandes, o nível de mendicância que somos sujeitos a passar com o governo brasileiro é absurdo. Cada evento é para ser representado por 100 ou 150 empresas e não 15, como acontece. O Chile está despontando porque TI tem sido prioridade para o governo nesses eventos”, contou.

Algo que Alexandre ajudou a criar, em Campina Grande, foi uma cooperativa de crédito para empresas do setor de TI. De acordo com ele, ela nasceu com o objetivo de fazer o empresário ser dono do próprio investimento. Orgulhoso, Alexandre Moura conta que a cooperativa começou com R$ 1 milhão e hoje gira em torno de R$ 8 bilhões. Como diretor de Relações Internacionais da Associação Brasileira de Fomento à Inovação em Plataformas (BRAFIP), ele revela:

Não acredito na construção de nada sozinho. Quanto mais movimento, melhor.”

O futuro da TI passa pelas pessoas

Tanto para Sebastião Ferreira quanto para Alexandre Moura, não há muito romantismo ou idealização sobre o mercado de Tecnologia da Informação, uma vez que ambos são profundos conhecedores da área. O olhar, por vezes crítico, no entanto, acaba sendo bastante colaborativo para o processo contínuo de evolução tecnológica e a exigência de constantes adaptações sociais e mercadológicas.

“É preciso resolver a questão da mão de obra”, afirma Alexandre, referindo-se à qualificação e ao nível de especialização que as empresas necessitam dos profissionais da área de TI. Em sua coluna no jornal eletrônico Paraíba online, o especialista em software publicou recentemente que “as novas tecnologias estão avançando de forma implacável sobre os postos de trabalho”. E citou o uso de pagamento digital pela rede de supermercados Carrefour em outros países. Segundo ele, a empresa está investindo em carrinhos de compras com escâneres capazes de fazer a leitura do código de barras do produto a cada vez que ele é inserido no carrinho. No final, é feita a totalização das compras, através de cartão de crédito, também disponível no carrinho.

“A ideia não é nova, pois outras empresas já utilizam soluções semelhantes, mas mostra que é uma tendência e que não tem volta. Além de eliminar as filas para pagamento nos caixas (no modelo atual) e adicionar espaço para mais prateleiras (com a eliminação da área ocupada pelos caixas), essa solução diminui os custos operacionais dos supermercados (tanto em folha de pagamento quanto em equipamentos e energia elétrica)”, escreveu Alexandre.

Se por um lado a sociedade assiste à “morte” de algumas profissões que estão sendo substituídas pela máquina, a tecnologia, segundo Sebastião Ferreira, traz um ganho imensurável para a sociedade. Embora o cuidado com o banco de dados e com a privacidade das informações precisem existir com mais rigor, Sebastião ressalta o salto na qualidade de vida que estamos tendo e que teremos nos próximos anos com a inteligência artificial.

“Acredito que áreas afetadas por doenças neurológicas, por exemplo, possam ser recuperadas por meio da tecnologia. A inteligência artificial já tem ajudado muito no quesito qualidade de vida. Hoje temos cirurgia de próstata feita por robôs. Isso era algo que ninguém imaginava”, comentou Sebastião. Outro bom exemplo dado por ele dos benefícios da modernização nos negócios é o da área agrícola. Antes, um fazendeiro contratava um profissional para, com um helicóptero, identificar as áreas que necessitavam de maior irrigação. Atualmente, um drone faz este mesmo serviço com maior precisão, identificando, ainda, a qualidade dos grãos e dos animais.

Questionados sobre que conselhos daria para quem está ingressando agora na área de TI, tanto Sebastião quanto Alexandre concordam: “Não há receita de bolo”, mas é preciso se especializar. “É importante, basicamente, definir que área de atuação seguir e pensar sobre ela, no sentido de enxergar de que forma essa atuação pode colaborar com a sociedade, como eu fiz”, recomendou Sebastião Ferreira.


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