“Um passo à frente e você não está mais no mesmo lugar”

Intrinsecamente conectadas, tecnologia e cultura traçaram o caminho da revolução sem volta no Recife dos anos 90. Mabuse hd, Maria Duda e Clóvis Lacerda contam essa história, embalados pela memória e frases certeiras do eterno malungo, Chico Science.
Maria Duda, Mabuse e Clóvis falaram das relações entre tecnologia e cultura, do passado e do futuro.

 

Ao longo da história, a tecnologia foi mudando a relação dos homens com a vida e a sociedade. O modo de agir, de pensar, de se comunicar, de se relacionar, de produzir arte foi sendo ressignificado a partir das experiências adquiridas com as soluções tecnológicas – manuais, relacionais, analógicas e, mais recentemente, digitais. A cultura encontra nessas ferramentas um campo fértil para se colocar no mundo de maneiras diferentes. Em Pernambuco essa união ganhou mais relevância a partir dos anos 90, com a junção entre a vontade de fazer diferente e sabedorias diversas, aliadas a um ecossistema digital favorável à aparição de um movimento revolucionário, o Manguebeat.

Lutando contra a imobilidade social, a dificuldade de acesso à informação e a baixa disponibilidade tecnológica do Nordeste brasileiro da época, uma geração de jovens conseguiu reconstruir sua história, criando novas formas de fazer música e de distribuí-la de modo mais abrangente, com o apoio da internet emergente. Para conversar sobre a relação entre tecnologia e cultura, o projeto Memória do Futuro convidou o professor, designer e músico Mabuse hd, a produtora cultural Maria Duda e o engenheiro eletrônico Clóvis Lacerda.  

Mabuse, um dos principais nomes da Cena Mangue, esteve à frente de alguns projetos seminais para o movimento, como o extinto site Manguebit – “o primeiro movimento cultural totalmente brasileiro disponível na rede mundial de computadores”, como registrou a reportagem da Folha de S. Paulo – em 1995; e a rádio online Manguetronic, projeto executado com o jornalista Renato L e com Maria Duda. Para ele, a tecnologia é um ponto de contato que permeia vários momentos da construção do Estado, e mais especificamente da capital, Recife. “O primeiro computador que foi instalado aqui em Pernambuco (no Recife) datou de 1963”, conta ele.  

No entanto, apesar do caráter inovador do Estado, ele destaca que não há (nem houve) por parte da elite econômica de Pernambuco um real interesse de investir na criatividade. Para Maria Duda, “a manutenção de uma certa elite” comentada por Mabuse é um posicionamento quase político:

“Eu acho que esse espírito de guerrilha que tinha no movimento Mangue, que tinha com o pessoal de cinema, era uma coisa contagiosa. Eu não estou dizendo que veio de lá, mas que surgiu também com o pessoal de tecnologia.”

Clóvis relatou experiências da Elógica

Clóvis pondera que em toda revolução cultural e tecnológica existe um trabalho que acontece por trás dos panos e a sociedade como um todo não percebe. “A internet surgiu depois de muita movimentação, na época de BBSs, que eram amadores que davam o acesso à internet através de um computador e uma linha telefônica. Antes disso, existia a comunicação de rádio amador. Tudo isso não aconteceu de uma hora para a outra. Isso vai acontecendo, essa movimentação quase que subterrânea, até um dia ela aflorar”, afirma, que tocava o provedor Elógica junto com Belarmino Alcoforado.

Com sede em Peixinhos, a Elógica foi a pioneira no fornecimento de internet em Pernambuco, além de criar um ecossistema de inovação, muito antes de surgir o conceito de incubadoras digitais: o Centro Empresarial de Informática.  “O meu sócio na época teve essa ideia. Ele permitiu que empresas pudessem ser incubadas sem nenhum custo. Disponibilizou sala, acesso, backbone de internet, para que houvesse uma criação natural de um ecossistema aqui em Pernambuco. Se você quisesse ter uma estrutura, era só aparecer por lá e dizer, ‘tive uma ideia louca’; e ele respondia: ‘tá aqui uma sala disponível para você’”, completou.  

 

Porto Digital bebeu na fonte do Manguebeat

Mabuse relembrou que o professor Sílvio Meira, cofundador do Porto Digital e do Cesar, faz um paralelo entre o impulsionamento do polo de tecnologia de Pernambuco e a intensa atividade cultural experimentada durante a década de 90. Mabuse conta que, para Silvio, o Cesar – e, por extensão, o Porto Digital – é um spin-off do movimento Manguebeat:

“Eles olhavam o que um monte de moleques estavam fazendo com uma indústria pesada igual à fonográfica, modificando o seu paradigma. Então esses professores de informática chegaram à conclusão, segundo Silvio, que também daria para fazer isso com a indústria de software.”

Antes do Manguebeat, relembra Mabuse, a concentração da indústria fonográfica se dava em fronteiras físicas muito claras. A produção de música do Nordeste era somente o que acontecia em Salvador. Essa bolha só começou a ser furada quando os próprios músicos entenderam que, a partir da Web, era possível encurtar distâncias com suas próprias pernas. “Eu acho que esse é o momento em que acontece essa ligação entre tecnologia e cultura, efetivamente, e eu acho que não é uma coisa meio óbvia. Mas o estouro mesmo foi com a Web”, diz Mabuse.

Em relação a esse ponto, Maria Duda complementa inclui na conversa o conceito de Zona Autônoma Temporária (ou TAZ), de Hakim Bey:“Não é exatamente a mesma coisa, mas existia uma espécie de entendimento de que era importante gerar uma autonomia com essa ambiência que tínhamos aqui, incluindo as pequenas empresas que surgiam e hoje se chamariam de startups. Essas iniciativas autônomas eram células que iam se alimentando ali e construindo. Você vê as pessoas da época e entende mais ou menos o caminho que todo mundo foi fazendo”.

 

Um grande laboratório de experiências difusas

A verve desbravadora fez com que aqueles jovens, com acesso precário a tecnologias de gravação e difusão, criassem fora do eixo Rio-São Paulo um movimento sólido, com cara, jeito e voz própria. Bastava um microsystem com um microfone para criar um estúdio caseiro e um programa de rádio. Com um kit de internet disponibilizado em dois disquetes de 3 ½ polegadas, dava-se um jeito de pôr o conteúdo no ar.

Maria Duda participou de várias iniciativas pioneiras e atuou no Porto Digital.

 

“Ninguém ganhava dinheiro pra fazer o Manguetronic. Mabuse fazia do UOL, Renato gravava, a gente ia na rádio e eu dava o upload. Era uma coisa totalmente de guerrilha. Não existia uma estrutura, alguém bancando, uma facilidade. E eu acho que de certa forma  isso contaminou muito. Era assim que se fazia cinema, era assim que se fazia música, era assim que se faziam as festas. Era um modus operandi que quebrou um pouco dessa hegemonia aí, desse lugar de onde as coisas legais acontecem”, relembra Duda.

Uma dessas experiências foi o Bom Tom Rádio, programa feito por Mabuse, Jorge Du Peixe e Chico Science, no quarto do próprio Mabuse, no finalzinho dos anos 80. “Eu comprei uma revista chamada Som 3. Ela tinha um encarte explicando como montar seu estúdio em casa e aí eu resolvi adaptar um monte de conceito que tinha lá para gravar em casa”, relembra. Foi desse programa gravado de forma caseira que saíram as primeiras versões de músicas presentes nos álbuns da Nação Zumbi, como A Cidade:

Éramos basicamente três amigos em um Recife infartado, em que não se tinha nada para fazer, que se juntavam no quarto de um deles e começavam a fazer música durante o fim de semana.”

Desses programas rudimentares, surgiram os primeiros registros da mistura de música eletrônica e referências locais que marcariam o trabalho de Science no futuro. E foi com esses registros que os primeiros passos do movimento Mangue começaram a ganhar o mundo, como rememora Duda. “Tem uma lendária história que Chico gravou uma fita cassete que era uma demo que tinha Mundo Livre, a Nação Zumbi (ainda como Loustal) e tinha alguma coisa do Bom Tom Rádio. E que Chico disse que encontrou Nick Cave na Ribeira, no show do Olodum, e deu a ele essa fita. Anos depois eu conheci a ex-mulher de Nick Cave em São Paulo. Me apresentaram a ela, que me disse: ‘menina, eu estou com uma fita cassete lá em casa até hoje que o Chico Science me deu’. Ela elogiou e disse que adorou à época e comentou que era uma fita de baixa qualidade, mas que justamente por isso era muito curiosa.”   

 

Muitas primeiras vezes

Em paralelo aos avanços da cena cultural, havia um esforço para registro e disseminação de informação que passava fortemente pelo fornecimento de internet. A partir da parceria estabelecida pela Elógica com veículos de comunicação, como o Jornal do Commercio, que toda uma nova linguagem de cobertura jornalística para grandes eventos passou a ser desenvolvida no Estado. Ele fala sobre alguns desses pioneirismos:

“Nós tivemos várias primeiras vezes. Fizemos o primeiro réveillon transmitido pela internet. Fizemos a primeira transmissão de resultado de vestibular, acho que do Brasil todo”

No caso do vestibular, ele conta que o resultado chegou à meia-noite e antes de ter a publicação impressa, disponibilizaram o material na internet. “Foi um pico enorme de audiência”, rememora.  Outro ponto alto foi a transmissão do Carnaval em parceria com a Terceira Onda, de Marcelo Mesel. Não existia transmissão de vídeo ainda naquela época, então eles tiravam as fotos, digitalizavam e enviavam, via FTP, para uma home page.

Clóvis acredita que a ausência de amarras e a descentralização desse início da web foram um motor importante para uma série de experimentações realizadas por estudantes e profissionais de tecnologia no Estado.

Uma delas foi o RE: combo, coletivo de artistas formado em 2001 que ao longo de sua atuação permitiu, por meio da comunicação digital, que qualquer pessoa utilizasse seus materiais,  assumindo-se como membro do Re:combo. “Em determinado momento do RE: Combo – que era uma coisa meio banda, mas ninguém tinha muita vontade de ensaiar, parecido com o Bom Tom Rádio nesse sentido –, todo mundo sabia que música eletrônica agora podia trocar os arquivos. Então a gente colocava os arquivos abertos das músicas na internet e disponibilizava no espírito de conteúdo aberto. Daí pro RE: Combo virar outras atividades além da música foi um passo. Em determinado momento ele virou um coletivo de mídia e de arte”, explica Mabuse.

Imagem do extinto site do Re: combo

 

Dessa experiência surgiu o embrião de uma licença que culminou na formatação de uso aberto para mídias, reconhecida pelo Ministério da Cultura. “De um jeito que, quando Gilberto Gil lançou aqui o Creative Commons com a Fundação Getúlio Vargas, no Brasil, a ideia original era que eles pediram autorização para renomear a licença como RE: Combo. Aí deu uma confusão danada com o Creative Commons gringo porque nenhum outro país do mundo tinha renomeado a licença com o nome de outro grupo e acabou mudando.”

 

O futuro requer desprendimento

Ressignificar coisas, modos de produção, distribuição. Experimentar uma nova cadeia de fruição das experiências culturais, sem necessariamente visar ao lucro como fim em si. Os três concordaram que ainda é possível encontrar novos caminhos, que deem continuidade aos passos iniciados pela geração seminal da tecnologia em Pernambuco.

Mabuse critica a dependência de influências externas.

Para Mabuse, algumas soluções estão postas, como a busca por um processo local, para resolução de questões também locais. “É você não ficar dependente de definições que vêm de fora daqui. Você é quem sabe, aqui, qual é o contexto que você vai fazer aquele negócio. Não pode se prender a fórmulas prontas. A gambiarra é a base da vida da gente aqui, de boa parte da produção. Isso associado a um pensamento mais coletivista. Uma das categorias que eu acho extremamente danosa, que vem com a cultura de startup para cá, é esse hiperindividualismo”, diz.

Duda acha que a gambiarra surge por uma pressão pela solução, mas que existe um limite pra isso.  “Essa coisa que você tem que viver produzindo 24h por dia, sete dias da semana é insustentável. Eu acho que toda essa coisa do super fazer, de ter que fazer tudo, o tempo todo, acaba bloqueando o espaço que a mente tem que ter para fazer a guerrilha, para pensar diferente”. Para ela, essa repetição deixa de lado o sentido de por que se está fazendo o que se está fazendo:

“Em alguma hora, esse processo é viciante e desgastante. Acho que a gente precisa encontrar esse equilíbrio da renovação tecnológica, com a manutenção do input, conhecimento e da reflexão”

Já Clóvis acredita que a tecnologia é um instrumento e um meio. “Isso vai permitir que você tenha uma diversidade maior de investir a sua capacidade artística, cultural para divulgar. O conceito de selfie, por exemplo, é o egoísmo em evidência total. Mas o ser humano nunca deixou de ser egoísta, certo? A tecnologia apenas evidenciou isso de uma maneira mais explícita esse lado egoísta das pessoas. Eu acho que a tecnologia permite que a gente expresse de uma maneira mais intensa o nosso lado artístico, mas não vai ofuscar nem vai dificultar. Pelo contrário, vai facilitar que isso possa chegar às grandes massas”, opina.


No site do Bate Bit, tutoriais ensinam a fazer gambiarras musicais com arduíno

Mabuse fez uma ponderação em relação a isso: para ele, a tecnologia pode influenciar o comportamento das pessoas e suas expressões. Ele buscou um exemplo simples e didático para esclarecer seu ponto de vista, o dos filtros do Instagram, que imitam tecnologias analógicas e fazem as pessoas fazerem fotos pensando na aplicação desses filtros. Para o professor e designer, esse aparente paradoxo guarda um grande desafio:

“Há um nível em que você é programado pelas tecnologias. Talvez o grande negócio da atualidade é como você pode estar, o tempo todo, hackeando essas tecnologias”

Mabuse e Duda comentam que há um grupo pernambucano que representa esse “hackeamento” ou releitura da relação entre cultura e tecnologia: o Bate Bit. Eles consideram o projeto “revolucionário” porque coloca o corpo dentro do processo tecnológico, via arduino, conectando cultura e internet das coisas. “Poderíamos estar olhando esse link com mais carinho. Isso não decola no imaginário das pessoas daqui (Porto Digital) por causa do padrão de desenvolvimento de startup. Quem está pensando em internet das coisas está fazendo o que todo mundo já está fazendo”.

 


Assista a um compacto da conversa entre Mabuse, Maria Duda e Clóvis Lacerda:

One Comment

  1. Foi uma época contagiante. Quem estava a fim encontrou ou criou sua própria tribo que enveredou por caminhos nunca dantes trilhados no meu artístico e tecnológico. Foi um novo descobrimento. Só que desta vez em Pernambuco.

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