Porto Digital: 18 anos e uma breve cronologia

Por Francisco Saboya

Economista, professor da Universidade de Pernambuco (UPE) e presidente do Porto Digital entre 2007 e 2018. O material, com algumas poucas edições feitas para publicação aqui no site do Memória do Futuro, foi veiculado originalmente em sua coluna semanal no Diario de Pernambuco.

Memória do Futuro - Ilha do Bairro do Recife, sede do Porto Digital - Foto: Léo Caldas

Temos falado sobre a importância dos ecossistemas empreendedores para o desenvolvimento das cidades numa realidade econômica movida à inovação, conhecimento e criatividade. Isso decorre basicamente da capacidade que os mesmos possuem de atrair talentos, prover serviços tecnológicos qualificados, propiciar fluxos de conhecimento, mobilizar capital de risco, promover vínculos de cooperação e estimular negócios inovadores globalmente competitivos, entre outros fatores. A visão subjacente é a de que i. a inovação é um fenômeno essencialmente empresarial (no sentido schumpeteriano); e ii. as empresas não inovam sozinhas e dependem de competências externas complementares e das interações entre elas. Ou seja, dependem de ecossistemas de inovação, que são complexos formados por conjuntos de elementos e interligações que influenciam a produção, difusão e utilização do conhecimento novo e útil para geração de negócios e para o desenvolvimento econômico.

Quando se buscam exemplos de ambientes com tais características, o nome do Porto Digital invariavelmente vem à tona. Poucos anos após sua fundação em fins de 2000, o parque tecnológico já começava a receber feedbacks encorajadores, seja por parte da imprensa seja por parte de organismos especializados nacionais e estrangeiros. Alguns exemplos. Em 2007, a Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores (Anprotec) o reconheceu como o melhor parque tecnológico/habitat de inovação do Brasil. Esse mesmo reconhecimento voltou a ocorrer nos anos de 2011 e 2015. Em 2008, a IASP – International Association of Science Parks and Areas of Innovation destaca o Porto Digital como um modelo de referência global, ao lado dos Parques Tecnológicos de Málaga (Espanha), Manchester (Reino Unido) e Hyderabad (Índia). Mais recentemente, foi um dos casos ressaltados no livro “Global Clusters of Innovation – Entrepreneurial Engines of Economic Growth Around the World” (2014), de autoria do pesquisador Jerome S. Engel, da Universidade de Berkeley, na Califórnia.

Em 2017 o Porto Digital recebeu do Iphan – mesmo não sendo uma instituição de cultura stricto sensu – premiação nacional na área de patrimônio histórico pela preservação e restauro de quase 100.000 m² de imóveis na região tombada do bairro do Recife Antigo. E, neste mesmo ano, outro órgão da administração pública federal, a Finep – instituição que financia estudos e projetos de inovação – apontou o Porto Digital como um dos casos de sucesso de sua ampla carteira de clientes, ao lado de apenas outras 11 empresas e instituições de todo o país.

Estes reconhecimentos advêm de resultados concretos. O Porto Digital possui atualmente cerca de 315 empresas, emprega mais de oito mil pessoas e fatura, no conjunto de seus empreendimentos, valor próximo a R$ 2 bilhões (estimativa para 2018).

A certidão de nascimento oficial desse ambiente de negócios inovadores é de dezembro de 2000, mas a sua construção vem de muito antes, e nada mais justo do que referenciar os antecedentes e destacar as ações conduzidas por agentes públicos, privados e acadêmicos que por décadas assentaram diligentemente cada tijolo dessa obra.

Claro que estabelecer uma cronologia para empreendimentos assim, que envolvem múltiplos atores e distintas visões, não é uma tarefa simples. A saída veio da escuta de vários personagens com atuação destacada no setor de tecnologia de informação do Estado. Este procedimento mitigou parte das dificuldades e propiciou a identificação de diversas iniciativas relevantes para a história do parque tecnológico. O fato de existir um ou outro evento que não seja pacífico entre as pessoas consultadas nem de longe invalida a tentativa de se criar uma narrativa que, ao considerar a visão de muitos, ajuda a diluir distorções geradas pela leitura de poucos. 

 

A culpa é do cérebro eletrônico 

Uma das características da Sociedade da Informação é a desmaterialização da vida econômica, decorrente da miniaturização dos produtos – em especial dos dispositivos eletrônicos – do aumento da capacidade de processamento computacional e da substituição progressiva de estoques de bens por fluxos de dados nos processos de geração de valor. Estoques ocupam lugar no espaço; fluxos ignoram esses limites e fluem livremente com as ideias.

Uma das metáforas mais impactantes dos anos 90 vem com a internet: tratava-se de anunciar um novo mundo (Nicholas Negroponte, pesquisador do MIT, Being Digital), em que os bits substituem os átomos; em que a economia era digital, e não mais industrial. Parecia um pouco de ficção, e o Porto Digital nasce nesse contexto.

A culpa toda foi de um IBM 1401, equipamento lançado pela companhia em 1959 e adquirido pela Prefeitura do Recife em 1963. A relevância do hardware nos dias de hoje – tomados pelas redes sociais, sistemas avançados de inteligência artificial, big data, robótica e internet das coisas – parece fora de propósito. Mas não naqueles tempos. Assim, definido o nosso marco zero, a questão agora é identificar os momentos-chave dessa escalada e traçar uma cronologia que vá além da sequência morosa de fatos e datas.

Para ajudar na tarefa, nos valemos da Triple Helix. Um de seus autores, Henry Etzkowitz, concebe a Hélice Tríplice como um modelo de inovação em que a universidade, a indústria e o governo, são esferas institucionais primárias que interagem para promover o desenvolvimento social e econômico por meio da inovação e do empreendedorismo. No processo de interação, novas instituições secundárias são formadas, isto é, “organizações híbridas”. O Porto Digital pode ser visto com uma destas instituições, e a adoção do modelo de organização compartilhada tem sido um dos seus fatores de êxito. Acreditamos, assim, que uma das formas mais apropriadas de se escrever a história do Porto Digital seja ressaltando os feitos de cada um dos seus atores principais, de cada pá dessa hélice tripla. Então vamos aos fatos:

A POLINIZAÇÃO (60s) – A década de 1960 se caracteriza pela implantação de um parque de computadores de grande porte por entes públicos para uso interno e instalação dos primeiros negócios privados de prestação de serviços.

  1. Governo – O pontapé dado pela Prefeitura do Recife foi secundado pela instalação de computadores de grande porte pela Sudene, Chesf, Secretaria da Fazenda e Condepe. Os anos 1960 viram ainda a criação das duas empresas públicas de processamento de dados por parte da Prefeitura e do Estado, respectivamente Emprel e Cetepe.
  2. Empresas – O Banorte adquiria seu primeiro computador e se preparava para fazer história na história da informática em Pernambuco. Ainda na virada da década de 60, os dois principais players globais da computação, IBM e Burroughs, instalam-se no Recife e contribuem para a formação de uma cultura técnica e de negócios no campo da informática. O Recife aprendeu a emitir notas fiscais antes mesmo que soubesse desenvolver sistemas.
  3. Universidade – A UFPE também instala seu CPD (Centro de Processamento de Dados) para automatizar tarefas administrativas e acadêmicas.

A FECUNDAÇÃO (70s) – Nos anos 1970 começa a ocorrer a estruturação de negócios privados locais e as primeiras iniciativas de formação de capital humano de nível superior, sem nenhum fato especialmente relevante na esfera pública. Interações entre os atores começam a surgir.

  1. Governo – Consolidação das estatais e da cultura do processamento de dados na gestão pública.
  2. Empresas – Criação da Procenge (1972), a mais antiga empresa em funcionamento no ecossistema do Porto Digital, e da Elógica (1978), realizando atividades típicas de birô de serviços para o setor privado e para prefeituras e governos de vários estados que não possuíam infraestrutura computacional própria.
  3. Universidade – A UFPE cria o Departamento de Estatística e Informática (1974), sendo oferecidos bacharelado e pós-graduação em ciência da computação. No ano de 1975 a Unicap (Universidade Católica)  dá início ao funcionamento de seu curso de graduação.

A PROPAGAÇÃO (80s) – Surgem negócios privados de maior porte e complexidade e a informática estatal amplia seu papel na gestão pública. A área de informática cresce de status na universidade.

  1. Governo – A automação crescente dos serviços de informática racionaliza processos e contribui para a reestruturação organizacional da administração pública, resultando na criação da Fisepe na virada da década.
  2. Empresas – Retornam à cena o Banorte, com a criação da Banorte Sistemas e Métodos e o desenvolvimento dos primeiros sistemas de automação bancária (1982), e o Grupo Elógica, com o lançamento do Corisco, primeiro computador projetado e construído em Pernambuco (1983).
  3. Universidade – Criação do DI (Departamento de Informática) da UFPE (1983), desmembrado do Departamento de Estatística e Informática, do Centro de Ciências Exatas e da Natureza.

A GERMINAÇÃO (90s) – Pernambuco vive grave crise econômica e perde relevância (sua participação relativa no PIB regional cai de 24,6% em 1970 para 17% em 1995; e o PIB nacional cresce, entre 1990-1995, mais que o dobro do PIB do estado). Novas interações e conexões entre as iniciativas desenvolvidas nos períodos anteriores ganham volume, gerando a ideia de um ecossistema empreendedor e inovador em tecnologia da informação de classe mundial para inserir o estado no novo contexto econômico global.

  1. Governo – Diversas iniciativas públicas no campo da infraestrutura de dados e internet foram essenciais para a germinação do ecossistema. Destacam-se a instalação do PoP-PE (ponto de presença na internet), em 1990, e a implantação no estado da Rede Nacional de Pesquisa pelo ITEP em 1995; a criação da Rede Cidadão na Emprel (primeira freenet municipal na América Latina, em 1994); a criação do Núcleo Softex Recife, ação coordenada pela Prefeitura do Recife em conjunto com Assespro (1994); a doação pela Prefeitura de prédio para instalação do ITBC (Information Technology Business Center) (1998), edifício inteligente que anos mais tarde viria a se tornar uma das âncoras do Porto Digital.
  2. Empresas – Cerca de 15 novos empreendimentos de desenvolvimento de software, muitos deles formados por empreendedores egressos da dissolução do grupo Banorte, foram incubados no Softex. Vários contribuíram para a primeira onda de povoamento do Porto Digital no início dos anos 2000. Mas como a grande transformação no mundo dos negócios e na própria vida social viria da implantação da internet comercial em meados dos anos 90, há que se ressaltar o pioneirismo do primeiro provedor comercial do estado, a Truenet (1995).
  3. Universidade – Contribuiu com pelo menos quatro iniciativas seminais nessa década: a criação do Doutorado em Ciência da Computação da UFPE (1992); a criação do Cesar (1996); o movimento Delta do Capibaribe (publicação de artigo-manifesto de Silvio Meira O Conhecimento e o Delta do Capibaribe)/Projeto Sociedade da Informação/Movimento de Cultura Digital Popular, todos em 1997); e a elevação do Departamento de Informática à categoria de Centro em 1999.

O DESENVOLVIMENTO (00s) – O Porto Digital é formalmente criado em dezembro de 2000, como reflexo de uma articulação arquitetada e coordenada pelo CIn (Centro de Informática da UFPE)  e a Secretaria Estadual de Ciência e Tecnologia, e com apoio de segmentos do empresariado de Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) do estado. 

 

Os marcos da evolução

O Porto Digital foi concebido com dois propósitos: criar um ambiente de desenvolvimento de software de classe mundial e contribuir para a requalificação do tecido urbano e do patrimônio histórico edificado do bairro do Recife Antigo. O primeiro refletia a crença no papel desempenhado pela indústria de software na configuração da economia do futuro. Além disso, considerava-se a necessidade de reaglutinação, no Recife e a partir do Porto Digital, das competências locais na área das TICs que haviam se dispersado em meio a um forte brain drain ocorrido no contexto da crise econômica dos anos 1990.

O segundo propósito ligava-se à compreensão, já naquele tempo, da importância das cidades, em especial de suas zonas históricas, na configuração de arranjos produtivos inovadores e empreendedores. A partir daqui, fecharemos nossa cronologia descrevendo os momentos mais relevantes desde dezembro de 2000, data oficial de nascimento do Porto Digital.

Passados 18 anos desde o surgimento, o Porto Digital pode ser entendido como um cluster de inovação da economia do conhecimento.

Os ciclos de vida desse tipo de arranjo produtivo possuem quatro estágios de maturidade: criação, crescimento, sustentação e declínio. Evitar esse quarto estágio e se posicionar permanentemente no segundo sempre foi o desafio maior da gestão do Porto Digital. Clusters bem-sucedidos são aqueles que, chegados à fase de sustentação, conseguem promover transformações de grande amplitude (e não apenas iniciativas de adaptação) e retomar uma trajetória de crescimento. É possível rebater essa dinâmica sobre a nossa realidade a partir da seguinte cronologia.

Etapa 1 – Criação (2001-2002) – Definidas as condições gerais de contexto, naquilo que chamamos na coluna anterior de Germinação do nosso ecossistema (90s), os dois primeiros anos desde a criação formal tiveram por foco essencialmente o assentamento das bases conceituais, físico-imobiliárias e estruturação da gestão do Porto Digital. As principais iniciativas desse período foram as restaurações de imóveis em ruína para abrigar a sede do Núcleo de Gestão, do CESAR (Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife) e da Secretaria Estadual de Ciência e Tecnologia, âncoras do projeto, chegando-se ao fim do período com 26 empresas instaladas no Porto Digital.

Etapa 2 – Crescimento (2003-2010) – Este período foi caracterizado pela implantação de vários mecanismos de atração de empresas e promoção de negócios, suportados por consistente estratégia de marketing institucional e do território (the place matters). O triênio 2008-2010 merece um registro especial, pois ali se evidenciava que o Porto Digital fazia claramente uma transição da fase de crescimento para a de sustentação, saindo de 100 para 200 empresas, superando a quantidade de cinco mil empregados e aproximando-se de um faturamento de R$ 1 bilhão (efetivamente alcançado em 2012).

As ações de maior relevância nesses oito anos foram, em 2006, 2008 e 2009. Em 2006, a cessão pelo Governo do Estado do edifício Vasco Rodrigues (o antigo banco estadual Bandepe) e a Lei Municipal de Incentivos Fiscais, ambas voltadas para atração de empreendimentos de tecnologias de informação. Em 2008, a elaboração de estratégia agressiva de captação de recursos de fontes externas ao estado, principalmente o governo federal (o que possibilitou a elaboração de cerca de R$ 300 milhões em convênios e contratos entre 2008 e os dias de hoje). Em 2009, a criação da incubadora CAIS de empreendimentos de TICs (projeto concebido desde a fundação, mas somente efetivado naquele ano); e, em 2010, a inauguração do empresarial ITBC, iniciativa do Softex arquitetada 12 anos antes e que logo se transformou em uma das principais âncoras do Porto Digital.

Etapa 3 – Sustentação (2011-2013) – A fase de sustentação é conceitualmente caracterizada pela manutenção de um número elevado de empresas e profissionais em um estado de equilíbrio, cujas flutuações ocorrem de modo mais cíclico do que estrutural. Foi isso que se observou neste triênio. A clara redução do ritmo de crescimento do Porto Digital frente ao período anterior se vê em números.

Partindo de uma taxa média da ordem de 29% ao ano entre 2003-2010, o índice declina para cerca de 6% entre 2011-2013, chegando-se nesse último ano a 233 empreendimentos instalados. Era o sinal claro de que o modelo perdia vigor e que novas iniciativas de maior amplitude, as “inovações para dentro”, deveriam ser concebidas.

A retomada de um novo ciclo de visibilidade e adição de valor para o crescimento do ecossistema se deu entre os anos 2013 e 2016, por meio de quatro movimentos de diversificação de competências complementares e de redefinição dos limites temáticos do Porto Digital. São eles:

  1. A ampliação do escopo, quando deixou de suportar apenas negócios baseados em tecnologias de informação e passou a contemplar o setor de economia criativa; neste caso, por meio da implementação de plataforma para criação, prototipação e finalização de produtos nas áreas de games e animação, audiovisual, música, fotografia e design (a estratégia Portomídia, 2013);
  2. A estruturação de hub de suporte à criação e consolidação de startups, baseada em mecanismos como aceleradoras, incubadoras e espaços de coworking (a estratégia Jump Brasil, 2014);
  3. A expansão dos próprios limites geográficos do cluster, a partir de um movimento de interiorização da atuação do Porto Digital em busca de novas conexões com outras cadeias produtivas do estado, iniciada em Caruaru com o polo de confecções e moda (a estratégia Armazéns da Criatividade, 2015); 
  4. A configuração do Porto Digital como um Urban Living Lab, para fomentar uma nova área de especialização voltada para mobilidade e tecnologias urbanas estruturadas em internet das coisas e fabricação digital (a estratégia Porto Leve/L.o.u.C.o – Laboratório de Objetos Urbanos Conectados, 2016).

Como já foi registrado aqui, o Porto Digital chega em 2018 com 315 empreendimentos, cerca de nove mil empregos e faturamento da ordem de R$ 2 bilhões. Devido à capacidade empreendedora instalada e à reputação que alcançou, tem potencial de ir muito além, explorar novos mercados através de programas de open innovation e outros serviços junto a cadeias produtivas globais; fomentar a inovação tecnológica em setores econômicos tradicionais em direção à indústria 4.0; e ampliar seu papel enquanto agente de transformação urbana no Recife e exemplo inspirador para outras cidades. Todas essas frentes se mostram como novas fronteiras a serem trabalhadas. 

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