Onde estão elas?

A presença das mulheres no setor de tecnologia da informação é muito pequena em relação à dos homens, mas nem sempre foi assim. Ana Carolina Salgado, Virgínia Sgotti e Laís Xavier falam sobre essa mudança e sobre os desafios inerentemente femininos neste mercado.
Virgínia Sgotti, Carol Salgado e Laís Xavier conversaram sobre as barreiras para mulheres no mercado de TI
Virgínia Sgotti, Carol Salgado e Laís Xavier conversaram sobre as barreiras para mulheres no mercado de TI.

 

A jovem inglesa Ada Lovelace tinha 28 anos quando se tornou a primeira pessoa a criar um algoritmo em toda a história da computação, por volta de 1843. Sua admiração pelos números veio de sua mãe, Anne Isabella Byron, grande estudiosa de matemática. A situação toda foi uma raridade do século 19. Porém, mais de 200 anos depois do feito de Lovelace, conquistas como a dela ainda não podem ser consideradas um acontecimento comum. Falta o estímulo ao engajamento de meninas nas ciências exatas, assim como a presença de mulheres no setor de tecnologia de informação – sobretudo com grandes realizações. A lacuna feminina neste mercado foi o tema da conversa entre a diretora acadêmica da Cesar School, Ana Carolina Salgado, a diretora de Operações da In Forma, Virgínia Sgotti, e a CEO da Mídias Educativas, Laís Xavier. Convidadas pelo Memória do Futuro, elas falam sobre como havia mais mulheres no setor até os anos 1980 e sobre os desafios de ser mulher em um território ainda predominantemente masculino.

Qualquer pesquisa rápida sobre o tema mostra que, atualmente, mulheres representam até 30% da força de trabalho em TI, percentual que, comumente, fica em 10% quando se fala especificamente em desenvolvimento de softwares. O descompasso ocorre não apenas no Brasil, mas em âmbito mundial, como lembrou Ana Carolina Salgado, que também é conhecida como Carol Salgado. A própria mesa redonda em que estavam ela, Virgínia e Laís foi uma exceção. Até então, só homens haviam participado das reportagens. O projeto demorou a encontrar mulheres entre os empreendedores que atuaram na TI de Pernambuco no período pré-Porto Digital e se encaixassem no perfil das entrevistas. Mas nem sempre foi assim. Carol e Virgínia viveram a época em que havia mais mulheres do que homens no setor.

Carol acredita que parte da mudança se deu por causa da percepção de computação como ciência exata
Carol acredita que parte da mudança se deu por causa da percepção de computação como ciência exata.

 

Graduada em 1980, na segunda turma de Ciências da Computação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Carol lembra que havia equilíbrio entre a quantidade de homens e de mulheres. Virgínia, da turma formada em 1991, sentia o mesmo contexto. Já Laís, que se graduou em 2006, era uma das 10 mulheres em uma turma de 110 alunos. A proporção de 10% é comum atualmente. “Abrimos vagas recentemente e não recebemos um currículo de mulher, só de homens”, contou Virgínia. Quando o olhar se volta para as profissionais que estão atuando, a presença maior é em segmentos como gestão de projetos e bancos de dados. Em desenvolvimento, há escassez. Carol exemplifica com os dois cursos de graduação na Cesar School, design e computação, abertos na mesma época. Elas estão presentes em design e ausentes em computação. Por isso ela acredita que a atratividade é um dos problemas atuais:

Sabemos que o problema é entrada. Depois que entram, elas evoluem, assim como os homens”.

Para as três participantes da mesa, diversos fatores podem ter contribuído para a mudança. Carol comentou que entre eles está o fato de a computação, no início, ter sido vista como uma atividade praticamente manual, já que a manipulação dos dados se dava via perfuração de cartões e era feita por mulheres com formação em datilografia. A matemática também acabou funcionando como um catalisador naquele momento, por ser a área do conhecimento mais atraentes para mulheres que gostavam de exatas. Carol acredita que a popularização de áreas como marketing e design criou ambientes mais convidativos para mulheres, enquanto a computação foi se revelando um campo científico da área de exatas, algo que historicamente já era de maioria masculina e com poucas referências femininas. Virgínia e Laís complementaram que o estímulo recebido pelos meninos e rapazes para jogos e brincadeiras que envolvem lógica é maior que para as meninas. Algo que Laís inverte com a filha Bia, de 4 anos:

Eu brinco com ela de Lego, de construção. As coisas que me interessam podem interessar a ela também, não somente as coisas ditas ‘de menina’. Acho que essa desconstrução tem que ser nesse momento”.

As barreiras começam a ser quebradas

A baixa presença de mulheres no setor TI geralmente fica mais evidente quando elas chegam a posições de liderança. As três participantes da entrevista participam sempre de reuniões com clientes ou colegas em que são a única ou uma das poucas mulheres. No entanto, relatam que não se sentem como alvo de preconceito, embora se vejam isoladas muitas vezes. Laís conta que, anos atrás, quando começou a participar de encontros das entidades de classe, não encontrava espaço para se manifestar, até que um dia ela declarou abertamente esse problema para os colegas. “Só tinha homem e eu disse: ‘Toda vez, eu entro muda e saio calada porque vocês não dão oportunidade’. Acho que deu uma mexida. Eles foram desmanchando essa barreira e hoje já não sinto esse tipo de problema dentro do nosso setor em Pernambuco. Mas, em nível nacional, continua a mesma coisa”.

Virgínia comenta que não sente dificuldades no trabalho diário, mas acredita que o fato de ser mais madura e de não ser a pessoa que trata diretamente com o cliente para vendas e negociação (ela lida mais com as áreas técnicas dos clientes) pese ao seu favor. Laís acrescenta que, apesar dos ganhos dos últimos anos, esses obstáculos continuam também no mercado em geral. “O pessoal que se formou comigo, se tivesse na mesma posição e fosse um homem, ia ter barreira para quebrar, mas eu tenho que quebrar umas três vezes mais, porque tenho que me vestir de modo muito mais formal, tenho que ser muito mais formal e muito mais competente para que as pessoas deem credibilidade.”

 

Virgínia diz que nunca se sentiu discriminada, mas concorda que o mercado pode ser hostil com as empreendedoras
Virgínia diz que nunca se sentiu discriminada, mas concorda que o mercado pode ser hostil com as empreendedoras.

 

Empreendedorismo e maternidade

O baixo número de mulheres em TI se reflete também nas iniciativas de empreendedorismo feminino, ou na falta delas. Apesar da ausência de dados oficiais sobre o tema, Virgínia e Laís atestam que há poucas mulheres fundadoras e/ou CEO de empresas no ecossistema do Porto Digital. “A maioria das minhas colegas viraram funcionárias públicas e não tenho notícia de que nenhuma além de mim tenha virado empreendedora”, comentou Virgínia. Sócia da In Forma há 25 anos, ela saiu da universidade em 1993 para empreender. Quase uma exceção, que a profissional atribui a fatores culturais:

A mulher não foi culturalmente criada para empreender e enfrenta principalmente essa questão da credibilidade. Tem que ser um ponto fora da curva. Principalmente na área de TI.”

Laís ressalta que empreender é complicado para qualquer pessoa, mas os desafios crescem para as mulheres. Quando a filha dela, Bia, nasceu, a única forma de voltar a tocar a empresa foi levá-la para dentro do negócio: o escritório passou a ter estruturas de suporte, como berço e trocador, e frequentemente Laís pedia licença das reuniões para amamentar. Os primeiros passos de Bia foram dentro da Mídias Educativas. Foi assim até a pequena completar um ano e meio, quando passou a frequentar um berçário. Já Virgínia teve um intervalo de 11 anos entre um filho e outro para cuidar dos negócios. Carol, apesar de não ser empreendedora, também se viu desafiada a desenvolver o papel de mãe sem abrir mão da sua carreira: trabalhava na Várzea (Zona Oeste do Recife) e todos os dias almoçava com o filho e o deixava na escola, em Boa Viagem (Zona Sul), em um trajeto diário de quase 30 km para ir e voltar.

“Temos essa carga adicional de educar, de estar junto do filho e de se manter profissional de ponta. Tem essa jornada dupla mesmo”, pontua Carol. Virgínia concorda: “Quem não abre mão nem da maternidade nem da profissão tem que fazer malabarismo para mostrar que isso não afeta sua competência. Para quem é empreendedora, apesar da pressão, tem uma certa vantagem na flexibilidade de horário, mas sem deixar de ser exemplo para os funcionários”. As três mulheres asseguram que a maternidade as tornou profissionais melhores. “A maternidade e a maturidade dão outra perspectiva aos problemas, fazem você ver que há coisas mais importantes com as quais se preocupar”, disse Virgínia. Laís conta que ficou mais focada: “Como não tenho mais a mesma disponibilidade de tempo, preciso focar mais. Aí é que você vê que consegue equilibrar 10 pratos ao mesmo tempo, quando, no passado, equilibrava um e já achava muito”.

Bia deu seus primeiros passos na Mídias Educativas. Foto: Acervo Pessoal - Laís Xavier
Bia deu seus primeiros passos na Mídias Educativas. Foto: Acervo Pessoal – Laís Xavier
Laís torce por um tempo em que iniciativas não serão necessárias diante do equilíbrio entre homens e mulheres
Laís torce por um tempo em que iniciativas não serão necessárias diante do equilíbrio entre homens e mulheres.

 

Por um futuro mais equilibrado

Já no fim da entrevista, Virgínia sintetiza a análise sobre a baixa presença das mulheres em TI em uma frase: “Não é que a área de TI excluiu as mulheres, é que ela não é atrativa para as mulheres.” Equilibrar a balança de gênero nesse mercado não é uma tarefa simples nem rápida, mas Carol, Virgínia e Laís acreditam que a transformação está acontecendo. Carol ressalta que parte disso ocorre graças a iniciativas que focam especificamente o avanço das mulheres em áreas de exatas como a Women Who Code. Ela também destaca que o avanço das ciências exatas rumo à interdisciplinaridade é outro aliado. Para Laís Xavier, a maior esperança é que o estímulo para as meninas e mulheres, seja para o desenvolvimento de uma carreira ou para a abertura de um negócio próprio, continue evoluindo ao ponto de, um dia, não ser mais necessário falar sobre essa desigualdade.

 


Assista a um compacto da conversa entre Carol Salgado, Virgínia Sgotti e Laís Xavier:

Deixe seu comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado.
Campos obrigatórios são marcados por *