Para onde foram os CPDs?

Memória do Futuro - Samuel Abreu
Samuel Abreu, Cláudio Alcoforado e Genilson Cavalcante falaram também sobre a evolução do profissional de TI


Se hoje é difícil pensar em como “sobrevivemos”, durante tanto tempo, sem fazer uso de celulares ou conceber a realização de uma pesquisa sem o Google, imaginem uma agência bancária sem um software para armazenar dados dos seus clientes ou um mercado varejista que não possui um sistema de controle de mercadorias. Cláudio Alcoforado, com 40 anos de profissão na área de TI, viu profissionais de informática surgirem no mercado a partir de uma necessidade de não só manusear computadores recém-comprados, mas desenvolver sistemas básicos para manutenção das empresas, como folha de pagamento, contabilidade e administração de estoque. A implantação dos Centros de Processamento de Dados (CPDs) foi uma consequência natural.


Incentivado pelo irmão Luiz Antônio Alcoforado, a quem considera um padrinho profissional, Cláudio começou a carreira processando dados em uma pequena editora de livros, acompanhou a revolução que a tecnologia causou nas empresas pernambucanas e, há oito anos, é CIO do Sistema Jornal do Commercio (SJCC). Memória do Futuro registrou o resgate histórico deste início da área de TI em uma conversa entre Cláudio, Samuel Abreu, consultor de tecnologia, e Genilson Cavalcante, presidente da Green Soluções em Papel.

 

“Não tinha joio nem trigo, tivemos que plantar”

Enquanto hoje existe excesso de informação, que exige discernimento para “separar o joio do trigo”, há quatro décadas, como lembrou Samuel, não se tinha quase nada para escolher. Era momento de “plantar”. A dificuldade começava, como recordou Cláudio Alcoforado, na inexistência de cursos de desenvolvimento e operação de sistemas nas universidades e, consequentemente, na escassez de mão de obra. Também era pequena a quantidade de softwares disponíveis no mercado. O tempo para a inclusão de uma informação no computador exigia do profissional uma disponibilidade inaceitável nos dias de hoje. “A informação precisava ser transcrita para chegar ao computador. Eu me lembro de ter trabalhado 31 dias seguidos do mês desenvolvendo sistema e de dormir no chão para esperar a máquina terminar o serviço porque o processamento era lento. Se desse problema, precisava colocar os discos magnéticos embaixo do braço e recorrer a um amigo que tivesse uma máquina semelhante”, lembrou Cláudio.   

O Grupo Bompreço, atualmente Walmart, e o já extinto Banco Banorte foram citados várias vezes durante a conversa. Eram dois nichos diferenciados no mercado que ajudaram a capacitar diversos profissionais da área e a colocar Pernambuco no cenário nacional. Sobre esse ponto, Genilson conta que ajudou, pioneiramente, a fazer da agência do Banorte localizada na Praça Maciel Pinheiro, Centro do Recife, a primeira informatizada do Brasil, com equipamentos e softwares nacionais. Cláudio e Samuel, que trabalharam no Bompreço, salientaram que o surgimento dos códigos de barra e a criação do cartão de crédito Hipercard para compra de alimentos foram, respectivamente, um marco para a tecnologia e o mercado varejista no Estado. Cláudio Alcoforado relembra:

Desde aquele tempo, o grande objetivo é melhorar processos, tornando-os mais rápidos, menos custosos e ganhar competitividade no mercado.”

Memória do Futuro - Samuel Abreu
Samuel Abreu lembra que mainframes eram restritos a poucas empresas de grande porte.

Além da mudança tecnológica que vem acontecendo no mundo, fatores muito importantes da economia e da política também interferiram na história da tecnologia da informação na sociedade local e no Brasil, como disse Cláudio.

Grandes empresas que tinham maior poder aquisitivo começaram a adquirir os equipamentos para montar os seus CPDs, mas os famosos fabricantes de computadores mundiais passaram a produzir máquinas de menor porte. Tal ação permitiu que empresários sem muito capital para investimento pudesse comprá-las. Empresas de Pernambuco, das mais diversas áreas, começaram então a adquirir esses computadores e a desenvolver suas próprias aplicações para conseguir melhorar os seus processos. A partir daí, várias mudanças aconteceram e veio uma transformação muito grande no período da ditadura militar provocada pela reserva de mercado.

 

 

A reserva de mercado atrapalhou a tecnologia?

Esta foi a pergunta que Samuel Abreu fez a Cláudio Alcoforado e a Genilson Cavalcante, mas a resposta levou em consideração não só quem foi beneficiado com o período como quem perdeu muito. Durante este momento da história do Brasil, o governo começou a regular os equipamentos de pequeno e médio porte e a proibir que certos tipos de computadores, produzidos no exterior, fossem comprados, sobretudo, pelas pequenas e médias empresas. As maiores, no entanto, continuavam adquirindo os equipamentos maiores (mainframes), mas precisavam cumprir a exigência de preencher formulários, enviar a Brasília e comprovar suas intenções com as compras. “O mundo das grandes empresas não foi afetado”, comentou Samuel.


Já as pequenas e médias, sem dinheiro para comprar mainframes porque eram caríssimos, tiveram que se reinventar criando hardwares e softwares próprios. O Banorte foi um case de sucesso nesta época, mas que exigiu ousadia, investimento e mão de obra especializada para não considerar aquele período negativo em sua história. De acordo com Genilson, o projeto de automação das agências era baseado na máquina PDP11, produzida nos Estados Unidos. Sem poder importar, eles decidiram fabricar um equipamento de hardware semelhante no Brasil e também o software, o que fez a DigiRede (empresa nascida no Banorte) dominar o mercado.  

“Mas nem todas as experiências na época foram bem sucedidas como a do Banorte”, afirmou Cláudio. Durante a ditadura, o Estado passou a interferir cada vez mais na economia. Para que o país não estacionasse do ponto de vista tecnológico, o governo começou a autorizar empresas brasileiras a copiar softwares internacionais. Os três profissionais de TI concordaram que a consequência disso, entre tantas que existiram, está no fato de ter sido gerada a “lei do menor esforço”, já que a cópia, tanto de hardware quanto de software, não os ajudava mais a desenvolver produtos próprios e avançar tecnologicamente. O preço destas cópias, porém, não diminuía pela ausência de originalidade. Pelo contrário: era quatro vezes maior do que o do software importado. E, pior, na maioria das vezes, possuía ainda o chip defasado, porque não conseguia evoluir com a tecnologia. “Tivemos uma ‘autorização de pirataria’ para copiar softwares e isso nos gerou problemas internacionais.”

Quando entrou em vigor a lei sobre a reserva de mercado, a IBM já estava com o estoque de equipamentos, que haviam sido encomendados pelas empresas, comprados e prontos para entregar. O objetivo de todos era alcançar a melhoria dos seus processos através destes equipamentos e poder dar um upgrade nos seus data centers. O problema, contou Cláudio Alcoforado, é que todos os equipamentos tiveram que ser devolvidos, obrigando as empresas a recomeçar sem eles e a criar sozinhas. “Isso atrasou muito o desenvolvimento da economia de uma maneira geral, principalmente das pequenas e médias empresas, que dependiam desses equipamentos para existir”, disse Cláudio.

 

Aprendizado na prática

Novas linguagens de programação começaram a ser aprendidas pelos profissionais de TI e os softwares se tornaram mais caros por causa da mão de obra local. Recrutar desenvolvedores e programadores de sistemas ainda era bastante complicado, o que só melhorou quando surgiram cursos técnicos, como os do Núcleo de Informática e Computação (NIC) da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), e a academia passou a incorporar nos cursos de Engenharia disciplinas de programação de computadores. A IBM e a Burroughs tiveram papel decisivo na formação desses profissionais. Era necessário ter nos CPDs especialistas.

Toda a tecnologia bancária que existe hoje, como os processos de pagamento bancário e caixas automáticos, surgiu nesta época da reserva de mercado. Os bancos, por exemplo, contratavam os profissionais de informática para que fosse feita a inserção dos dados. Samuel comparar aqueles dias com os atuais:

Hoje, a gente pega o smartphone e visualiza o extrato, mas na época não era assim. Havia os digitadores profissionais só para alimentar os sistemas. Era muito caro ter um terminal à disposição do usuário final.”

As empresas foram, nesta época, grandes escolas. E assim como acontecia em diversas áreas, elas valorizavam o profissional, capacitavam e davam todas as condições para que o empregado não tivesse intenção alguma de sair dela. Nos anos 80, os data centers foram muito impulsionados em Pernambuco, quando o empresário João Carlos Paes Mendonça contratou um executivo uruguaio da Ernest & Young, César Castelli, para trazer equipamentos modernos e capacitar mais pessoas. O Banorte também tinha um programa de capacitação dos seus profissionais em parceria com a IBM.

Depois da extinção da reserva de mercado, as empresas que se mantinham através dela sofreram um processo de encerramento das atividades. Inicialmente, passaram a fazer joint venture (união de duas ou mais empresas) para tentar chegar a uma tecnologia mais atualizada. Afinal, estavam defasadas. Apesar das tentativas, não resistiram muito tempo.  

Dos CPDs à nuvem ou a outro lugar

É incerto dizer quais serão os próximos passos da tecnologia da informação, o futuro dos seus profissionais e o limite para esta evolução e revolução digital que vivenciamos. Será que ele existe? Ao que parece, nem “o céu é o limite”, afinal já se atingiram as nuvens. Brincadeiras à parte, a transferência do conceito de armazenamento de dados de um espaço físico, amplo, refrigerado, com piso elevado e grandes máquinas abrigando milhares de servidores e processando grande quantidade de informação (como são os CPDs ou data centers) para um conceito mais moderno, como o armazenamento na nuvem, não é futuro, é presente e parece ser um caminho sem volta.

A massificação dos microcomputadores, pontuou Cláudio Alcoforado, significou o contato direto dos usuários finais com a tecnologia. Os profissionais que migraram de outras áreas para a de TI trouxeram com eles outra visão, que acabou contribuindo com esta evolução, ajudando também a agilizar processos e a melhorar a qualidade da informação. Aliada à necessidade constante de melhorias na segurança de dados e rapidez nas respostas ao consumidor, também havia a preocupação com os custos. A opção de poder substituir o investimento em um espaço no ambiente corporativo para abrigar servidores e equipamentos caros por uma hospedagem virtual (via internet) em que se consiga acessar, em qualquer lugar e fuso-horário do mundo, programas, softwares e arquivos remotos no modelo pay-per-use (pague por uso) tem sido uma escolha vantajosa para grandes empresas.

Memória do Futuro - Genilson Cavalcante
Genilson Cavalcante hoje atua com soluções na nuvem.

“A nuvem é uma terceirização do hardware”, explicou Genilson Cavalcante, que desde o Banorte seguiu se aperfeiçoando junto com a tecnologia e hoje é presidente da Green Soluções em Papel, empresa que trabalha com armazenamento de dados na nuvem e colabora com a tendência de acabar com o uso do papel como arquivo físico. Ao discutir esse caminho, Cláudio Alcoforado citou que até instituições e veículos de comunicação considerados bastante tradicionais têm se rendido ao modelo virtual e abolido o papel, como é o caso do Diário Oficial do Estado de Pernambuco, cujo sistema foi implantado, entre outros profissionais, por Samuel Abreu.

O fluxo da informação em alguns períodos do ano ou em eventos específicos tem exigido das empresas, órgãos e instituições um sistema de armazenamento robusto e eficiente, para dar conta das demandas dos usuários. O uso sazonal da nuvem, neste caso, tem sido a solução para o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), no período das eleições; para a Federação Internacional de Futebol (FIFA), durante a Copa do Mundo;  e para o Detran, nos prazos de licenciamento de veículos, só para citar alguns exemplos.

Em paralelo, a criação de aplicativos mobile de serviços públicos e privados por desenvolvedores de TI encurtou a distância do “fornecedor” com seu “cliente” e ajudou a personalizar cada vez mais a experiência do usuário com a internet. Cláudio comenta sobre as habilidades atuais que são necessárias:

O profissional de TI deve sempre pensar no design thinking, trabalhar na experiência do usuário pensando na melhor entrega para quem vai consumir a tecnologia.”

Questionado se os antigos operadores de CPDs e os atuais profissionais de TI irão desaparecer no futuro, Cláudio Alcoforado, bem como Samuel Abreu e Genilson Cavalcante foram enfáticos ao opinar que não. “Eles vão continuar trabalhando na manutenção dos equipamentos, arranjando soluções de problemas técnicos, dando suporte aos gestores que precisam tomar decisões e apresentando à organização novidades de tecnologia”, previu Cláudio. Segundo ele, aquele que trabalhar no setor de TI e não se atualizar, este sim, tende a desaparecer.

Outra dica para quem quer continuar no mercado: é mais importante um CIO conhecer o negócio da empresa onde trabalha do que dominar a tecnologia. Tecnologia, de acordo com eles, se compra, mas se não se entender a atividade empresarial, os objetivos corporativos, não se saberá onde a TI pode ser aplicada de forma mais eficaz, correndo-se o risco de “atirar no alvo errado”. Na opinião de Cláudio, Genilson e Samuel, as várias versões da área tecnológica (as mais antigas com as mais modernas) ainda vão conviver. O interessante é entender que a importância daquelas figuras tidas como “estranhas”, que entendiam de códigos e sistemas quando cursos de Ciência da Computação ainda nem existiam, continuam sendo fundamentais para viabilizar tecnicamente o conforto e praticidade que a tecnologia nos proporciona e para o que ela ainda vai nos proporcionar.

 


Assista a um compacto da conversa entre Cláudio Alcoforado, Samuel Abreu e Genilson Cavalcante

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