O criador de conexões

Protagonismo de Cláudio Marinho na gestão pública foi decisivo para dar apoio governamental aos projetos de empreendedorismo e criar o Porto Digital.

 

Cláudio Marinho - Memória do Futuro
Cláudio Marinho (centro) recebeu o Memória do Futuro em seu escritório, que fica no ITBC, no Recife Antigo. A conversa foi com Sílvio Aragão (esq.) e Cláusio Barbosa (dir.). Foto: Virgínia Rodriguez


Talvez nunca se tenha falado tanto a palavra “conexões” como na era pós-internet. Pedimos licença para usá-la mais uma vez, porque é essencial para tentarmos descrever o papel de Cláudio Marinho na história do ecossistema de inovação pernambucano. Ele é um construtor de conexões. A principal delas foi a ponte entre o poder público e as mentes disruptivas da área de tecnologia da informação, especialmente nos anos que antecederam a fundação do Porto Digital. Sem suas costuras entre governo e as iniciativas empreendedoras, o parque tecnológico certamente teria outro formato ou mesmo não teria formato algum. Os detalhes dessa trajetória foram registrados pelo
Memória do Futuro no encontro entre Cláudio Marinho, o CEO da Avantia, Sílvio Aragão, e o cofundador da Even3 Cláusio Barbosa. Na conversa, Cláudio também conta que conexões quer construir daqui para frente.

No seu escritório, no quinto andar do ITBC, no Bairro do Recife, ele mantém a Porto Marinho, empresa de consultoria em cenários e estratégias que toca sozinho e da qual se intitula somente “consultor”. Da sala, com vista para o mar e acesso fácil aos encontros da serendipidade (as boas descobertas que podem surgir do acaso), o hoje cidadão pernambucano pode não apenas contemplar, mas também viver sua obra. Algo que não estava exatamente nos planos do adolescente paraibano, nascido em Coremas e criado em Patos, que veio para o Recife para se formar “doutor”. Virou engenheiro civil em 1975, mas foi no planejamento urbano, área de sua primeira pós-graduação, que deu o tiro mais certeiro: dali começaria a “mudar o mundo”. Sua filosofia: 

“Se quero mudar o mundo, melhor mudar por dentro do governo, da política pública.”

O currículo como gestor público foi construído em grande parte durante mandatos de Jarbas Vasconcelos, que esteve à frente da Prefeitura do Recife de 1986 a 1989 e depois de 1993 a 1996; e do Governo do Estado de Pernambuco de 1999 a 2006. Entre os lugares por onde Cláudio transitou na vida pública, destacam-se a Emprel (Empresa Municipal de Informática), no cargo de diretor adjunto, de 1993 a 1996; e a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente do Governo de Pernambuco, da qual foi titular de 1999 a 2006.

A passagem por esses dois órgãos públicos foram cruciais para as interações de Cláudio Marinho com o setor de TI e com a revitalização do Bairro do Recife, que desaguaram no Porto Digital. “É um momento que tenho muito carinho em rememorar, pois foi o começo da internet em Pernambuco e no Brasil”, pontua o consultor, ao comentar fatos do início dos anos 1990. Um tempo em que a conexão com a internet se fazia a partir do Itep (Instituto de Tecnologia de Pernambuco), localizado ao lado do CIn/UFPE (Centro de Informática da Universidade Federal de Pernambuco). A experiência era possível graças à RNP (Rede Nacional de Ensino e Pesquisa).

 

Jarbas Vasconcelos e Cláudio Marinho
Jarbas Vasconcelos e Cláudio Marinho nas obras do Porto Digital, no Recife Antigo. Foto: Acervo Pessoal de Cláudio Marinho


“Você ainda não sabia nem o que era disquete quando começamos a fazer isso”, brinca Cláudio Marinho, ao falar com Cláusio – o cofundador da Even3 era um bebê no início dos anos 1990, enquanto o então diretor adjunto da Emprel ajudava a viabilizar a conexão do Recife com o mundo. Cláudio ressalta que as novidades se multiplicavam, tudo ao mesmo tempo, carregadas pela internet: “Aquela época era um momento de confluência fundamental, com o Windows, a World Wide Web (WWW) e a internet colorida, em janelas”.

Sílvio Aragão quis saber se esse conjunto de ações teria sido o ponto de partida para o apoio do poder público ao setor de TI. Cláudio Marinho pontuou que a Prefeitura do Recife foi pioneira nesse sentido. Funcionava na Emprel a Rede Cidadão, um projeto de acesso gratuito à internet através de uma linha discada. Por ele, as pessoas podiam navegar no mar virtual.

A Rede Cidadão também fazia algumas das primeiras incubações de empresas de tecnologia e outras iniciativas inovadoras, como a Elógica, o Cyberland (da Procenge) e o JC Online – versão digital do Jornal do Commercio, primeiro a entrar na internet no País. Outro marco foi a participação do Recife como a sexta cidade a aderir ao Programa Softex (Programa para Promoção da Excelência do Software Brasileiro), que deu origem ao Softex Recife. Há, ainda, o fato de Jarbas Vasconcelos ter sido o primeiro prefeito brasileiro a ter seu endereço de correio eletrônico, o e-mail. Foi também nos anos 1990 que surgiu o Cesar, Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife.

 

Logo Rede Cidadão
Logotipo da Rede Cidadão.
Imagem: Acervo Pessoal de Cláudio Marinho

O momento único que deu início ao Porto Digital

As iniciativas dos anos 1990 cultivaram o terreno para o grande passo da década seguinte. No ano em que o mundo se preocupava com o “bug do milênio”, Cláudio Marinho assumia a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente de Pernambuco, onde suas costuras anteriores e seu já forte relacionamento com o professor, pesquisador e empreendedor Silvio Meira [[link para a matéria de Sílvio]] semeariam o Porto Digital.

No ano 2000, Jarbas Vasconcelos abriu caminho para que Cláudio Marinho criasse um projeto sólido de fomento ao setor de TI de Pernambuco, para ser incluído no Pacto 21, criado pelo Governo do Estado para tratar de investimentos estruturadores. O consultor rememora o dia da apresentação do projeto do Porto Digital, gestado sem conhecimento dos colegas da gestão pública, mas com intensa participação de quem empreendia no setor naquele tempo. “Lembro do dia anterior à reunião do Pacto 21. Na hora que eu ia no carro, vi no PowerPoint: R$ 32 milhões. Disse: ‘Vou botar mais um milhão aqui pro Cesar, para ficar na idade de Cristo’. Foi aí que começamos.”

O Porto Digital foi anunciado no dia 21 de julho de 2000, com R$ 33 milhões arrecadados na privatização da Companhia Energética de Pernambuco (Celpe), “para a surpresa de muitos”, como diz Cláudio Marinho: “Alguns colegas secretários ficaram meio com raiva porque não sabiam até o dia do lançamento”. Sílvio Aragão perguntou a Cláudio se os fundadores do Porto Digital haviam se inspirado em algum outro parque tecnológico e quais foram as referências que deram origem ao projeto. Para o consultor da Porto Marinho, era um caminho natural observar ambientes inovadores como os que ficam no entorno das universidades norte-americanas, aproveitar o que deu certo e modelar para a realidade do Recife. No entanto, a capital pernambucana tinha um cenário mais complexo:

“Não podíamos ficar achando que apenas a simples replicação da ‘tríplice hélice’, formada por academia, governo e empresas, funcionaria. Sim, mas em que combinação? Em que acerto? Em que lugar?”

 

Silvio Meira e Cláudio Marinho
Silvio e Cláudio em evento no Porto Digital em 2002. Foto: Acervo Pessoal de Cláudio Marinho

Por outro lado, considerando o contexto brasileiro, havia em Pernambuco fatores que se uniam em favor da implantação de um parque tecnológico. Entre eles, indica Cláudio Marinho, está o empreendedorismo dos professores do CIn/UFPE, além da articulação das empresas, organizadas institucionalmente através da representação estadual da Assespro (Associação das Empresas Brasileiras de Tecnologia da Informação).

Cláusio Barbosa questionou Cláudio sobre o motivo da escolha do Bairro do Recife como sede do parque tecnológico. O consultor já tinha uma história com a revitalização do local. Contudo, ele frisa uma questão mais prática nesse processo decisório. “Essa virou folclore, mas é verdade. Eu cheguei pra Sílvio e disse: ‘Me diz um restaurante aqui perto da nossa universidade onde a gente possa levar um visitante, um investidor’. Silvio disse: ‘É, só tem o Arriégua mesmo…’ Então não tem, né Silvio? Vamos pro Centro da Cidade.” Cláudio Marinho esclarece que ele e Silvio Meira chegaram a procurar o prédio da Sudene (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste), sem sucesso. Ele faz outra ressalva ao dizer que nunca houve “nada contra os bairros da Várzea (onde está a UFPE) ou Engenho do Meio (próximo), mas eles nunca transbordaram como ambiente de negócios, mantiveram-se residenciais”. E continua:

“Você pode ter regras institucionais, políticas, incentivos, instituições e organizações, mas se não tiver uma definição estratégica de um território, não vai ter algo exitoso. E a gente escolheu o território certo, o Centro da Cidade.”

Cláudio Marinho acrescenta outro fator que permitiu ao Porto Digital florescer: o modelo de gestão, a Organização Social (OS), que dá autonomia ao parque, sem desconectá-lo de seu propósito, que é ser uma política pública de fomento à tecnologia e inovação do Estado. Por isso, o consultor diz que é difícil, hoje, pegar o modelo do Porto Digital e fazer um parque tecnológico em outro lugar. “Alguns estados brasileiros já vieram nos visitar querendo fazer seu Porto Digital. Mas não tem como replicar, porque foi uma confluência de interesses rara entre setores, especialmente, o público.”


O presente que precisamos cuidar

“Quando você olha para o Porto Digital, como enxerga qual deve ser a relação das empresas já consolidadas com as startups?”, questionou Cláusio Barbosa, trazendo a discussão para o presente. Cláudio Marinho observa uma relação promissora de interdependência, com interesse maior vindo das grandes empresas, que enxergam nas startups a chance de inovar de verdade. “Há um movimento extremamente virtuoso para nós, que é o das organizações globais abertas para ecossistemas de inovação. Não dá para ficar dependendo só da inovação ‘in house’.”

 

 

Cláudio Marinho e Cláusio Barbosa
Cláudio Marinho explica a Cláusio Barbosa o porquê da escolha do Recife Antigo como sede do Porto Digital. Foto: Virgínia Rodriguez


Ele explica que essa aproximação pode ser geográfica, como no caso da FCA (Fiat Chrysler Automobiles),
cujo Centro de Desenvolvimento de Software foi instalado no Bairro do Recife em 2015, ou por meio de negociações mais diretas, como no caso de comitivas de grandes indústrias que visitam o Porto Digital em busca de soluções inovadoras em que possam investir. Há também o movimento de empresas pernambucanas de pequeno e médio porte, como a própria Avantia, que recentemente adquiriu a startup Áudio Alerta, criada no Recife. “Grandes empresas estão vindo falar conosco e a pergunta básica é: ‘Por que a Accenture está dando certo aí?’ Quando alguém pergunta isso é porque já foi questionado por outros porque ele próprio não está fazendo o mesmo”, conta Cláudio Marinho. Para ele, as companhias querem estar onde as coisas estão acontecendo.

A continuidade do Recife como foco de talentos da área de TI e ponto de criação de soluções inovadoras também foi a base das perguntas de Cláusio Barbosa para Cláudio Marinho: “Que desafios teremos para levar o Porto para frente?”. A resposta do consultor pode ser resumida em uma palavra: determinação. Ele sustenta sua explanação acerca do assunto numa pesquisa da psicóloga Angela Duckworth, que gerou o livro Grit. Segundo a especialista, tudo tem sua importância: habilidade, inteligência, competências… mas o que determina o sucesso ou o insucesso é a determinação, a persistência. E conclui:

“Minha recomendação final: devemos ser cada vez mais ‘gritty’, ajudar nossos filhos, alunos e empreendedores a tornarem-se mais determinados, mais persistentes, ‘grittier’.”

Ainda olhando para o futuro, Cláudio Marinho faz uma reflexão sobre sua jornada e, não sem uma certa modéstia, orgulha-se do quão “gritty” foi até agora. Ele conta que um amigo urbanista lembrou-lhe do quanto era privilegiado: “Você é o único urbanista que eu conheço que pode andar na sua obra”, disse o amigo. Cláudio faz uma ressalva: “É uma obra coletiva, sou parte da cocriação dela”. Mas não esconde a satisfação de ter sua consultoria embarcada no Porto Digital, com escritório no Bairro do Recife. “Meu futuro eu faço a cada dia que desço para tomar um café, ao encontrar pessoas… Isso me dá esperança de continuar trabalhando até não sei quando pela cidade do Recife, por Pernambuco, por esse negócio que a gente criou junto.” E assim Cláudio Marinho segue para poder ficar à mercê da serendipidade e fazer valiosas descobertas não planejadas, ao acaso, ao passar pela calçada do bairro que ajudou a reconstruir.


Assista a um compacto da entrevista com Cláudio Marinho

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